Qdo eu ouço as canções

Naquele tempo eu ouvia as músicas que a gente ouvia juntos para me sentir feliz à tarde, no meio do expediente, quando eu precisava fugir do mundo chato das responsabilidades. Hoje, o mundo das responsabilidades me salva da tristeza que essas músicas me trazem.

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De outro tempo

Tinha feito muito sol durante o dia e a gente ficou estirado na areia mais tempo do que devia, então a pele esticava e ardia um pouquinho. Depois do banho, fomos jantar. Andamos até o restaurante e a noite tinha cheiro de maresia. Voltamos sem pressa, com preguiça e deitamos, exaustos, um do lado do outro. Nada mais. Adormecemos assim. Sem frenesi, sem agarração, só dormimos, com plena consciência do nosso cansaço e do resto do tempo todo de nossas vidas que tínhamos pra fazer outra coisa que não dormir. E aquela era minha paz.

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Um dia, foi embora de lá. Tinha uma vida corrida. Trabalhava muito, estava sempre ocupado, mas, vez por outra, pensava em estar lá. Tinha amigos, saía com eles, se divertia e, no caminho para casa, pensava como seria se estivesse lá. Fazia viagens, conhecia novos lugares e os comparava com lá. Estudava, adquiria conhecimento. Conhecia novas pessoas, tinha que saber gerenciar todas essas atividades e não tinha tempo de voltar para lá. Quando parava para pensar, se entristecia, porque lá não mais existia.

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Vontade de ter vontade

Já tinha se acostumado tanto a desistir de tudo aquilo do que tinha vontade que um dia chegou à conclusão de que precisava querer algo. Não queria. Não queria isso nem aquilo. Calor ou frio. Dormir ou sair. Ficar ou ir. Passou a ter vontade de ter alguma vontade. Algum impulso que a jogasse pra frente, sem duvidar, sem reconsiderar. Desligar o piloto automático. Hold the wheel and drive.

 

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Eu, no seu lugar…

Cada pessoa é um mundo.

Ela não é só aquilo ali que você vê, ou o que você a ouve falar. Ela é tudo pelo que já passou, bom ou ruim, misturado.

Ela é a fome que passou na infância ou não, a atenção que teve dos pais ou não, os amores correspondidos ou não.

Ela é aquele momento que você tem com ela mais suas preocupações, suas expectativas.

E cada um é uma mistura, com seus ingredientes próprios e sua forma própria de reagir a eles. Talvez por isso seja tão difícil se colocar no lugar do outro.

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Flamingo, Brandon Flowers (2010)

Vou fazer uma resenha do Flamingo, álbum solo do Brandon Flowers. Olha que chique. Mas se prepare para um texto totalmente parcial, afinal, eu me considero a maior fã dele no mundo todo. No entanto, fique tranqüilo. Não vou escrever nada do tipo EU QUERIA SER A ESPOSA E MÃE DOS FILHOS DELE.

Ao contrário do que li em algumas críticas, não achei Flamingo parecido com um disco do The Killers. Apesar de a voz de Flowers ser uma das marcas registradas da banda e do fato de ele mesmo ter declarado que preferia que esse fosse um disco do The Killers (ele disse que os companheiros queriam uma folga dele, que já estava com algumas música prontas e resolveu ir em frente “solo”), ele conseguiu imprimir sua personalidade no álbum de forma que não, não parece um trabalho do The Killers.

Começa pelo fato de que não é um álbum de rock-dançante. Vou falar uma coisa que vai parecer uma crítica dura: Flamingo parece The Killers em slow motion, ou com o freio de mão puxado. Só que não é uma crítica dura, eu amei o álbum. Tem músicas cantantes, isso sim. Ele também conseguiu diversificar o estilo de forma muito competente. Vai do indie mais puro (em Swallow It) ao country (em The Clock Was Tickin’), raíz da cultura em que Flowers foi criado.

Imagino que o show de Flamingo não provoque o mesmo carisma do público que um show da banda de Flowers provoca. É aquele tipo de show maravilhoso só para quem já ama o artista (como ocorre com a Colbie Cailat, por exemplo). Perdoa-me, Senhor, pois comparei Brandon Flowers a Colbie. Vou melhorar isso. O show do Flamingo, imagino, deve ser tão cativante quanto o da Regina Spektor.

De qualquer forma, Mr. Flowers já tem seu público cativo. O álbum foi lançado no Reino Unido no dia 6 de setembro e menos de uma semana depois já figurava no topo da lista da Billboard (o que prova que eu devo estar errada quanto à afirmação de ser a maior fã dele no mundo todo).

Brandon finalizou esse trabalho solo, primeiro de sua carreira, em meio aos últimos shows da turnê do Day & Age (após a qual a banda anunciou um recesso sem data para terminar, ainda mais agora que Brandon está “grávido” pela terceira vez e quer participar do crescimento dos filhos). Mas teve também outro evento que marcou a produção do Flamingo. Em fevereiro deste ano, Brandon perdeu sua mãe, Jean, de 64 anos, que lutava contra um câncer desde 2008. Talvez aí esteja um fio solto do discurso que permeia muitas das músicas de Flamingo (e de outros álbuns do The Killers também): a família. Outro assunto que dá o ar das graças é a religião, que aparece também, mas nem tanto assim, nos outros trabalhos do Brandon com a banda. E, como não podia deixar de ser, há muito DRAMA também. Vou entrar nesses assuntos no faixa-a-faixa.

Faixa-a-faixa:

1-      Welcome To Fabulous Las Vegas

Claro, Brandon nasceu, se criou e cresceu lá. Fazia parte de uma banda, cujo nome não me recordo, e, quando a banda resolveu mudar para Los Angeles, na Califórnia, ele se recusou a mudar junto. A música é apoteótica e não faz parte das mais cantantes do álbum, mas é uma entrada à altura do que vem a seguir. Como o dono gosta, a música carrega o espírito de sua cidade natal.

2-      Only The Young

A melhor parte dessa música, para mim, é a percussão. E, é claro, o refrão. Esse sim promete puxar coro em shows ao vivo (eu fico sonhando que ele vai vir fazer show desse álbum no Brasil). Aqui ele chama pela mãe (Mother, it’s cold here) e diz que a vontade do Pai será feita (Father, thy will be done), mas está se referindo a Deus. Flowers é mórmon, mas sua religiosidade não é muito recorrente em sua música. Como todo bom rock’n roll star, passou por sua fase de negação da religião e bebedeira, mas diz ter-se redimido. Sabe o que aparece nessa música também? O sol! Nunca vi banda para ter “sun” nas músicas como o Killers. Um dia vou fazer uma coletânea de “frases-de-músicas-do-Killers-com-sun-no-meio”. É o sunset, o sun shines, under the heat of southwest sun…

3-      Hard Enough

Minha primeira pergunta: quem é essa? A música conta com um vocal feminino acompanhando a linda voz (falei que ia ser parcial) do Flowers. Descobri que é a Jenny Lewis e que ela foi escolhida por Brandon por ter, também, o espírito de Las Vegas. Eu gostei muito da escolha. Eles combinaram no jeito de cantar e os timbres não brigam entre si. A letra é cheia de drama. Se o Brandon Flowers fosse brasileiro, tenho quase certeza que ele pertenceria a uma banda chamada Loser Manos. Mas eu não me importo, amo tanto o BF como o LH. E essa é a primeira faixa que você começa a cantarolar com mais vontade.

4-      Jilted Lovers & Broken Hearts

Veja o nome da faixa e tenha certeza que o drama continua. Com um L estampado na testa, Brandon canta: Why did you roll your dice? And show your cards? / Jilted lovers and broken hearts / You’re flying away, while I’m stuck here on the ground. E continua com aquelas frases que todo mundo fala nas fases mal amadas de suas vidas, como: eu só queria saber desde o começo que você nunca mais voltaria. Buááááá. I mean… O que importa é a musicalidade, né? E essa é outra das que dá para cantar, além de ter um arranjo mais rapidinho e animadinho.

5-      Playing With Fire

Nessa Flowers desafia Deus, como um filho que avisa o pai que vai sair de casa. Mas sem deixar de dizer que acredita na Salvação e no amor e que não vai caminhar sem um Deus. Eu queria entrevistar o Brandon um dia, porque a impressão que eu tenho é que ele teve uma relação imposta com a religião, que ele foi desenvolver depois, mas marcada por essa mágoa da imposição. Viajei? Sei lá, pode ser. Para entender melhor o que eu estou falando, ouça também Sweet Talk, do Saw Dust (álbum de lados B do The Killers). A melodia é lenta e GUARDE AS FACAS QUANDO OUVIR.

6-      Was It Something I Said?

Gente, o mocinho da história da música leva um belo de um pé na bunda. O lado bom é que a música é animadinha e dá vontade de dar uma dançadinha, enquanto canto: Was it something that I said or did? Quem nunca se perguntou isso, não é mesmo? E essa Valentina (a bandida da história), como ela teve coragem? Eu não estou focando nada na musicalidade, né? Bom, o arranjo é aquele que se repete do começo ao fim da música, mas é bom, e tem um tecladinho que nos prova que a culpa por todo o teclado presente nas músicas do Killers é mesmo do Flowers.

7-      Magdalena

Aí começa Magdalena com o que? Teclado. E uma frase das otimistas (que eu amo): Please don’t tell me I can’t make it / It ain’t gonna do me any good. Essa realmente parece The Killers. Mas é um ritmo mais lento. Vou confessar que essa foi a segunda que eu menos gostei. A primeira que eu menos gostei é a última do álbum. Vê lá embaixo. Ainda assim, gostei. Gosto quando um coral canta junto com o Brandon (assim como gosto do coral de crianças em Tranquilize, do mesmo Saw Dust que eu citei acima). Aqui também estão temas que o Flowers gosta muito de cantar: pegar a estrada, família (children, sons, daughters), religião (o demônio, os anjos, a bênção, o perdão) e o México.

8-      Crossfire

É a música escolhida para ser o single de trabalho do álbum é merece o cargo. A melodia é gostosa e dá vontade de cantar (e em mim também reascendeu a vontade de aprender a tocar bateria). Na minha opinião, a bateria é o instrumento tocado com maior competência nessa faixa. A letra fala dos assuntos preferidos do Brandon: céu e inferno, relacionamento, pessoas se machucando. Acaba, no entanto, com uma promessa boa – And our dreams will break the boundaries of our fears –, e com a deliciosa repetição: Lay your body down (x6) / Next to mine.

9-      On The Floor

Chega uma parte da música em que você acha que está ouvindo um hino de igreja. E podia ser mesmo, porque ela fala da hora do dia em que uma pessoa se ajoelha e ora. É bonita, boa de ouvir, meio calmante.

10-   Swallow It

Na sequência vem uma música que poderia ter sido gravada pelo Cansei de Ser Sexy. Achei muito esquisito o começo do refrão da primeira vez que ouvi, bem indie, mas agora (já ouvi o CD umas 1984298745983647 vezes) já é uma das faixas que eu amo. E a letra é boa também. Meu trecho favorito: Think it through before you open your mouth to talk / Be an advocate of joy / Find your little heart’s desire and /Follow it.

11-   The Clock Was Tickin’

Gente, que triste essa. Ela tem uma pegada country e uma letra extensa. Você canta felizinho sem prestar muita atenção no que está cantando, porque no segundo refrão você já pegou o “and the weeks fly by and the years roll on”. Mas o final é muito triste. E, como disse um amigo meu, é como acontece mesmo. Ele conta a história de um casal até a morte da esposa, com frases que rasgam meu coraçãozinho, como “You watched as a caravan took your sweetheart away / The arguments and fights and money troubles seemed so worthless”, ou “House is quiet now everything inside seems to know she’s gone”. Aí eu encontrei uma coincidência entre a Jackie, que morre na música, e a Jean, mãe do Brandon. As duas tiveram seis filhos. Será que ele fez essa para ela? Ou para o pai, no caso, porque ele fala do ponto de vista do marido. Teria que perguntar isso para ele…

Agora, me conta, como ele pode cantar SUCH A SAD SONG com essa carinha marota?

12-   Jacksonville

Faixa sem brilho essa, mas também é fácil de cantar de primeira. Aqui fica claro aquilo que eu falei sobre o freio de mão puxado. Dá vontade de perguntar quando ele vai chegar ao ponto que interessa, que nunca chega. Quem vê, pensa que eu não gostei, mas gostei, e isso fica por conta da letra do tipo “vai ficar tudo bem”.

13-   I Came Here To Get Over You

Tem uma guitarra tão gostosa nessa. Boa de aumentar o som e cantar, para extravasar, tipo a gente (o mundo inteiro) faz com I Will Survive. Pera lá, é uma música indie e nunca seria tão unânime assim.  Então, a principal diferença está no #FAIL em superar o outro. “And the lights are burning like kerosene / I can’t stop thinking about you and me / Did you cross your fingers when you told me you’d be true?”.

14-   Right Behind You

Ele desperdiçou um título lindo com uma música CHATA. Sempre tem uma que eu odeio (tipo Uncle Johny, no Sam’s Town). Não gostei e não vou escrever sobre ela. Sinto muito. (Tá, a letra é boa, mas a música não chegou perto de me parecer legalzinha.)

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Frio

Fazia muito frio. Mas não era mais possível distinguir se o frio era o atmosférico, que devia beirar o negativo, ou se vinha do iceberg que ela passou a sentir dentro do peito. Sensação polar característica de todas as vezes que ela quis gritar, correr, xingar, bater, se revoltar, dar uma aula sobre o que é responsabilidade com os sentimentos dos outros e tudo que fez foi cruzar os braços e apertar o passo na esperança de que ninguém percebesse que o choro ia desabar. E o frio vinha também da força para segurar o tal choro. Tudo que ela queria falar parecia tão claro e fazia sentido na sua mente, mas, sabe-se lá porquê, não conseguia fazer conexão com as cordas vocais, a língua e os lábios. Como sempre acontecia, ele a acusou de estar brava, analisando a superfície, mas sabendo, lá no fundo, que aquilo não era braveza, era mágoa. E era cansaço também. Cansaço de choro, de mágoa, de braveza, de frio. O pior não era constatar mais um alarme falso. O pior mesmo era constatar que aquilo ali era um extrato do que foi sua vida até então.

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